Maltrapilho

19 de fevereiro de 2016 at 15:00 2 comentários

Aqueles dias pareciam que o céu lhe pesava infinitamente mais sobre os já doloridos ombros.
Estava cansado de apanhar da vida. Por mais que procurasse uma solução, não conseguia encontrar a cura p’raquelas dores.
Tinha a consciência que conseguiria analgésicos eficientíssimos nas drogarias, porém nada que pudesse aplacar o que ele sentia.
Sua dor não era física, escondia-se entre a cabeça e o coração, também conhecida como dor moral.
Centros, templos e igrejas não foram eficazes. Não conseguia encontrar Deus em lugar nenhum.
De psicólogos a psiquiatras, das mais profundas terapias aos tratamentos mais eficazes, nada parecia conseguir espantar àqueles fantasmas que persistiam em acompanhar o seu caminhar.
O sono cada vez mais raro demorava a chegar noite após noite, nenhum prato lhe agradava mais, usava sempre as mesmas roupas, esquecera a última vez que sentira o gotejar das águas límpidas de um chuveiro.
Não que a família desistira dele, contudo ele desistira não só da família, mas de toda sua vida.
Ultrajante e ultrajado caminhava a esmo dia e noite.
Era apenas uma sombra do homem que um dia foi.
Andava sozinho, vivia sozinho, falava sozinho, se com os espíritos que riam daquele maltrapilho, se com os anjos que tentavam, sem sorte alguma, levar algum alento àquela pobre alma.
Quem o via naquelas condições jamais atentariam quem foi aquele sujeito.
Os documentos há muito desaparecido, incluía-o no rol dos indigentes, era só mais um nas estatísticas ou seria menos um?
A verdade que aquele abobado fora um dos homens mais influentes de sua época. Época nem tão longínqua assim, vinte, vinte e cinco, no máximo trinta anos se passara do ocorrido até os dias atuais.
Poucos sabiam sua história e a guardavam a sete chaves, afinal ele estava pagando pelo que fez.
Apenas um pobre anjo se importava com ele.
Dava-lhe de comer, quando conseguia tratava de sua higiene, aparava-lhe a barba, conseguia roupas…
Dentre questionamentos aquele benfeitor fazia-lhes ouvidos moucos, apenas sabia que estava fazendo a sua parte.
Um dia a história ganhou vida e se espalhou.
O mendigo era proprietário de uma vasta extensão de terra, bom coração tratava seus empregados como irmãos, amava sua esposa e esperava ansioso a chegada do primogênito.
Foi quando se deparou com os sussurros dentro do seu lar: “Esse filho que ela espera não é dele…”
Investigou e descobriu a verdade, enlouqueceu…
Largou tudo, esposa, filho, terras, bens, sumiu no mundo.
O suposto filho é o único que ainda se importa com ele.
De nada vale as escadarias que galgamos durante nossa vida, um passo em falso pode nos derrubar pra sempre, principalmente se a causa dessa queda for um coração partido!

                          Inibmort

Entry filed under: Inibmort, Texto. Tags: , , , , , , , .

Ana de la Reguera Prece de Caritas

2 Comentários Add your own

  • 1. Danila Berto  |  19 de fevereiro de 2016 às 15:25

    Uma história dentre tantas que passam por nós, invisíveis… Bela história!!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Dabun’s Page


Desde 28/07/2.009

Estatísticas

  • 331,822 acessos

%d blogueiros gostam disto: