Colisão

12 de agosto de 2016 at 15:00 Deixe um comentário

Foi como se arrancassem abruptamente o chão sob seus pés. Sustentou-se em algo sólido e concreto para não desabar. Amparado por mãos cuidadosas fora alocado em uma cadeira.
Olhou a sua volta, tentou prender o ar em seus pulmões, contudo os olhos marejados ofuscavam-lhe a visão.
Acreditou viver um sonho ou melhor um pesadelo.
Levantou e caminhou novamente até a maca, puxou o lençol. Mesmo totalmente desfigurado ele não tinha dúvida, conhecia aquele corpo que jazia ali sem vida.
Tentou recordar da primeira vez que a vira. Ainda na flor da idade, linda, cabelos ao vento, exalando vida por todos os poros.
Os primeiros encontros, a primeira vez, o casamento, a concepção dos filhos, a última vez que estiveram juntos.
Menos de vinte e quatro horas, foi na manhã do dia anterior, ela saíra para uma conferência, falaram-se pelo celular minutos antes de retomar o caminho de casa.
Uma mão descansou em seu ombro, percebeu que não era um toque de consolo, olhou pra trás e percebeu que nunca tinha visto aquele senhor.
Uniformizado ele pediu a confirmação do reconhecimento e seguidamente convidou-o a segui-lo.
Em outra sala encontrava-se um novo corpo. Tentou identificá-lo porém não conseguiu saber quem era.
Corpo aquele encontrado junto ao acidente que até o momento sabia-se que fora ocasionado por um caminhão que trafegava na contramão. Agora se aquele outro corpo encontrava-se dentro ou fora do carro, só a perícia poderia confirmar.
Foi o dia mais triste e dolorido de sua vida. Amigos e familiares tentavam consolar aquele pai e seus filhos que se despediam da mulher de suas vidas.
Sabia que depositava naquela sepultura uma grande parte de sua vida. Os filhos ainda pequenos pouco entendiam do ocorrido, porém sabia que não seria nada fácil a vida dali pra frente.
Em poucos dias cairia a ficha e aquelas crianças iriam sofrer a dor dos órfãos para sempre.
Semanas depois, batia-lhe a porta o oficial da perícia que veio trazer-lhe a informação pessoalmente.
Constatou-se que sua mulher saíra de um motel horas antes e estava no banco do passageiro enquanto aquele senhor, que já havia sido identificado como um colega de trabalho, diria o veículo.
A última notícia que fez seu coração em pedaços é que a sua mulher encontrava-se grávida de seis semanas.
Daquele dia em diante o anjo tornava-se demônio. A boa mulher convertera-se em impura Messalina, um odioso ser promiscuo e traidor.
O altar que ele criara na estante com fotos e objetos da esposa fora arrancado com ira e queimado, seu nome nunca mais seria pronunciado com carinho e paixão.
Enfim… se pudéssemos voltar algumas horas antes, no instante que terminava a conferência, flagraríamos aquela mulher com um sorriso estampado em seu rosto ao sentir os primeiros enjoos.
Suplicou o auxílio do colega, que não se fez de rogado e concordou em conduzi-la de volta ao lar. A parada repentina no Motel foi por uma boa razão, afinal o posto mais próximo ficava há alguns quilômetros e ela tinha a necessidade de regurgitar novamente e se possível tirar alguns resquícios que ficaram grudados em sua roupa e cabelos do último enjoo.
Infelizmente ninguém conheceria aquelas últimas horas antes da colisão fatal.

              Inibmort

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